Foto/Divulgação: Octacilio Barbosa
Um em cada dois entrevistados descobre livros pelas redes sociais, revela pesquisa de 2026; bibliotecas, escolas e leis da Alerj abrem caminhos para despertar o prazer de ler.
Um vídeo no celular pode despertar a vontade de abrir um livro. Uma conversa entre amigos pode levar à descoberta de um autor. No Dia Nacional do Livro, celebrado nesta quinta-feira (29/10), esses caminhos colocam em evidência o desafio de conquistar leitores em uma geração conectada. Entre recomendações nas redes sociais, encontros de clubes e descobertas nas bibliotecas, o interesse por uma história pode começar longe da sala de aula e continuar muito além de uma tarefa escolar.
Nas redes, comunidades como o BookTok, dedicada aos livros no TikTok, transformam impressões de leitura em vídeos, comentários e recomendações. Personagens e enredos ganham espaço nas conversas dos jovens, abrindo possibilidades para que a curiosidade pela primeira página se transforme em vontade de continuar lendo.
“O BookTok aproxima os jovens das histórias, tanto pela identificação com os personagens quanto pela descoberta de outras vivências. Compartilhar impressões e recomendações cria um sentimento de pertencimento que ajuda a transformar esse interesse em hábito de leitura. A comunidade também mostra que há espaço para diferentes gostos e formas de ser leitor”, afirma Cecile Mendonça, jornalista, escritora e produtora cultural.
Essa conexão aparece em pesquisa realizada pela Serasa em parceria com o Instituto Opinion Box, entre 15 e 26 de junho de 2026, com 1.261 entrevistados de todas as regiões do país: 51% afirmam descobrir novos títulos pelas redes sociais. O interesse, porém, encontra obstáculos no acesso: 70% relatam já terem deixado de comprar um livro por falta de dinheiro.
Quando uma história puxa outra
Por trás dos números, a experiência de cada leitor ajuda a revelar o que desperta o interesse pela literatura. Uma história próxima da própria realidade, um universo de fantasia ou a indicação de alguém da mesma idade pode abrir caminho para novas descobertas.
“Conheci ‘Percy Jackson e o ladrão de raios’ em um vídeo no TikTok. A pessoa falava da história com tanta empolgação que fiquei curioso. Quando comecei a ler, queria sempre saber o que aconteceria no próximo capítulo. Terminei e fui atrás dos outros livros da série. Antes, lia mais por obrigação da escola; agora, também leio porque tenho vontade”, conta Bruno Oliveira, de 15 anos.
Na escola, essa aproximação passa também pela maneira como os livros são apresentados. Escolher títulos que dialoguem com os interesses dos alunos e abrir espaço para conversar sobre as histórias são caminhos para despertar a curiosidade. Para a professora Marisa Carmo da Silva, que lecionou por 24 anos no Colégio Estadual Visconde de Cairu, o retorno aparecia quando os estudantes buscavam novas leituras por iniciativa própria.
“Antes de propor um livro, procurava conhecer os interesses dos alunos. Conversávamos sobre as histórias, relacionávamos com a vivência deles e líamos alguns capítulos juntos. Era gratificante quando um aluno chegava com outro livro do mesmo autor, pedia indicações e queria contar o que tinha lido. Ali, percebia que a curiosidade havia se transformado em vontade de continuar lendo”, lembra.
Uma biblioteca viva
Na Biblioteca Parque Estadual, as histórias ultrapassam as estantes. Além do acervo físico, o público tem acesso a 12 mil títulos digitais e a uma programação com visitas literárias de escolas, saraus, clubes de leitura e debates. A equipe acompanha os interesses dos jovens nas redes para aproximá-los das atividades e dos livros.
“Precisamos usar diferentes linguagens para atrair crianças e jovens. A literatura pode chegar por um jogo, uma peça de teatro, uma exposição ou uma contação de histórias. O importante é oferecer um espaço em que eles se sintam acolhidos e tenham vontade de voltar. É esse sentimento de pertencimento que buscamos: uma biblioteca viva”, afirma Jorge Costa, bibliotecário e coordenador da Biblioteca Parque Estadual.
As primeiras páginas começam na infância
Cecília, de 3 anos, já tem lugar nesse encontro com a literatura. Sua mãe, a pesquisadora científica Cristina Garcia, indígena do povo Macuxi, de Roraima, vive no Rio há dez anos e faz das visitas à Biblioteca Parque Estadual um programa de descobertas e histórias compartilhadas.
“Desde a inauguração, trago a Cecília aqui. Pegamos livros emprestados, conto histórias para ela e participamos das atividades. Temos uma biblioteca em casa, mas quero que, desde pequena, ela se sinta à vontade entre os livros e descubra o gosto pela leitura”, conta Cristina.
Virar a página da queda na leitura
Essas experiências convivem com um cenário de retração registrado pela sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2024. Naquele ano, o país tinha 93,4 milhões de leitores, uma redução de 6,7 milhões em relação a 2019. A proporção caiu de 52% para 47% da população com cinco anos ou mais. Pela primeira vez na série histórica, os não leitores foram maioria, com 53%. O levantamento considera leitor quem leu ao menos parte de um livro, impresso ou digital, nos três meses anteriores à entrevista.
No Rio de Janeiro, o índice foi de 48%, mesmo percentual do Pará e um ponto acima da média brasileira. Entre os resultados estaduais individualizados, Santa Catarina liderou, com 64%, seguida por Ceará e Paraná (54%), Espírito Santo (53%) e Goiás, que, assim como o Distrito Federal, registrou 52%. Cinco estados da Região Norte tiveram resultados agrupados, o que impede um ranking individual completo das 27 unidades federativas.
Leis da Alerj abrem novos capítulos
Ampliar o acesso aos livros e envolver os jovens no incentivo à leitura também são objetivos de leis aprovadas pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). A Lei 11.146/26, de autoria das deputadas Dani Balbi (PCdoB) e Tia Ju (REP), institui o programa Jovens Embaixadores do Livro, destinado à formação de jovens de 15 a 29 anos como incentivadores da literatura.
A norma prevê seleção por edital público e capacitação em mediação de leitura, atividades culturais e gestão de projetos. O programa deverá desenvolver ações em parceria com instituições públicas e privadas, com acervo composto por obras clássicas da literatura brasileira.
“Uma indicação nas redes sociais pode despertar a curiosidade por um livro, mas esse jovem precisa encontrar uma biblioteca de portas abertas, acesso às obras e incentivo para continuar lendo. É esse caminho que buscamos fortalecer com as leis aprovadas pela Alerj, para que o prazer da leitura faça parte da vida de mais pessoas”, afirma Douglas Ruas, presidente da Alerj.
Outra iniciativa é a Lei 10.404/24, do deputado Munir Neto (SDD), que autoriza o Executivo a implementar o Cartão do Saber, auxílio para estudantes da rede pública estadual comprarem livros e materiais de leitura, inclusive digitais. A norma prevê frequência escolar mínima de 75%, e a concessão depende da implementação pelo governo e dos recursos disponíveis.
Na tela, na estante ou no colo de quem conta uma história, o encontro com a literatura pode começar de muitas formas. Dar continuidade a esse percurso exige acesso, incentivo e liberdade para descobrir. No Dia Nacional do Livro, o desafio é fazer com que, ao virar a última página, o leitor encontre motivos — e oportunidades — para abrir outro livro.
Texto: Fátima Gomes, da Agência Alerj
