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Caracterizado pelo acúmulo desproporcional de gordura, principalmente nas pernas, o lipedema pode causar dores e limitações funcionais; especialista em angiologia explica as particularidades da doença, enquanto paciente com lipedema relata os impactos dela na rotina.
Inchaço nas pernas, celulite e dores ao ficar muito tempo em pé fazem parte da rotina de Fernanda Miranda, de 40 anos. Os sintomas estão relacionados ao lipedema, uma doença crônica do tecido adiposo que acomete quase exclusivamente mulheres. A condição é caracterizada pelo aumento desproporcional e geralmente simétrico da gordura, principalmente nas pernas e, em alguns casos, também nos braços. Segundo o Consenso Brasileiro de Lipedema, a doença afeta 12,3% da população feminina no Brasil. “A primeira saia que usei eu tinha 18 anos. Nunca ia à praia porque tinha vergonha do meu corpo”, relata Fernanda, que só recentemente recebeu o diagnóstico da doença.
Além das alterações na distribuição da gordura, o lipedema pode causar sensibilidade ao toque, sensação de peso e desconforto nos membros, sintomas que, em alguns casos, podem interferir na mobilidade e atividades cotidianas. É justamente para pacientes que apresentam essas repercussões funcionais que a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) protocolou um projeto de lei que assegura medidas de atendimento prioritário e proteção às pessoas com lipedema. A proposta consta no Projeto de Lei 8.198/26, que tramita no Parlamento fluminense.
Uma das determinações previstas na medida é a disponibilização de assento durante o período de espera do atendimento e utilização de assentos reservados às pessoas com mobilidade reduzida nos serviços de transporte coletivo de passageiros sujeitos à competência estadual, quando as repercussões do lipedema ocasionarem efetiva redução da mobilidade. A norma também inclui que essas pessoas podem utilizar, se disponível, assentos ou locais destinados ao repouso do público em estabelecimentos, eventos e espaços de uso coletivo, quando a permanência prolongada em pé puder agravar as repercussões funcionais decorrentes do lipedema.
O que são repercussões funcionais?
Segundo a médica especialista em angiologia pela Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular do Rio de Janeiro (SBACV/RJ), Ana Paula Peclat, repercussões funcionais significam que o lipedema não é avaliado apenas a aparência ou o volume das pernas, mas também situações em que os sintomas da doença interferem objetivamente na capacidade da paciente de realizar suas atividades habituais.
“Uma paciente pode apresentar dor e sensação de peso importantes ao permanecer muito tempo em pé, dificuldade para caminhar longas distâncias, subir escadas, praticar atividade física ou desempenhar determinadas atividades profissionais. Isso é particularmente importante porque nem toda mulher com lipedema apresenta o mesmo grau de comprometimento. A avaliação deve ser individualizada e considerar o impacto funcional da doença, e não simplesmente seu aspecto estético ou volume dos membros”, frisa Ana Paula.
Lipedema e obesidade são a mesma coisa?
Ainda de acordo com a especialista, a principal diferença entre o lipedema e a obesidade é que o primeiro apresenta um padrão clínico característico. No entanto, apesar disso, os dois podem coexistir na mesma paciente. Ana Paula ressalta que a distinção é importante para combater um problema frequente: pacientes que passam anos ouvindo que precisam emagrecer, quando existe uma doença específica que precisa ser reconhecida e tratada.
“Na obesidade, o aumento do tecido adiposo tende a ser mais generalizado e não costuma produzir esse padrão típico de dor e sensibilidade à pressão. Por isso, não devemos atribuir automaticamente ao excesso de peso todas as queixas de uma mulher com lipedema. O IMC, isoladamente, também apresenta limitações nessa diferenciação, justamente porque não considera a distribuição do tecido adiposo”, pontua Ana Paula.
Por muito tempo, Fernanda também acreditou que as mudanças no corpo eram consequência do sobrepeso. “Os sintomas começaram bem nova, aos 14 anos. Como eu engordei muito nessa época e fui uma adolescente obesa, tinha certeza de que era isso. Eu também tinha muito problema de varizes. A primeira vez que fui ao médico ver isso eu tinha 15 anos e ele me mandou para casa porque eu ainda era muito nova para fazer injeções. Mesmo depois de emagrecer, eu tinha muita vergonha do aspecto das minhas pernas e da flacidez no corpo”, narra Fernanda.
Ela também conta que conviveu com esses sintomas até os 38 anos, mas chegou a fazer duas cirurgias de varizes, em 2013 e 2022, para aliviar o peso das pernas. No entanto, mesmo depois de emagrecer, ela percebeu que esse excesso não sumia. “Inclusive, também fiz lipoaspiração para tirar o culote e o excesso na parte das pernas, mas ficou meio defeituoso porque na época não sabiam do que era e tratavam como uma gordura normal. Ano passado eu engravidei e acabei não conseguindo começar o tratamento”, pontua Fernanda. Quando recebeu o diagnóstico de lipedema, ela lembra o alívio ao descobrir que todos os sintomas tinham uma razão: “Foi quando eu entendi que eu não era só relaxada ou que eu não me esforçava o suficiente, porque era essa a impressão que passava”.
Ana Paula Peclat reforça que os sintomas podem interferir de maneira muito concreta na rotina e lembra que alguns pacientes acabam reduzindo a atividade física justamente porque sentem dor ou peso para se movimentar. “Isso pode favorecer o sedentarismo e o ganho de peso, aumentando ainda mais a limitação funcional. Uma mulher que trabalha oito horas em pé, uma professora que permanece longos períodos dando aula, uma profissional de saúde que passa o dia caminhando ou uma pessoa que precisa utilizar transporte público e subir escadas diariamente pode ter suas atividades significativamente prejudicadas pela dor, pelo peso e pelo desconforto nos membros”, explica Peclat.
A doença pode ser considerada genética?
A especialista chama atenção para outro aspecto: predisposição familiar. Ela destaca que diversos estudos mostram a ocorrência do lipedema em diferentes mulheres da mesma família. “Ainda não podemos afirmar que seja uma doença genética simples, causada por um único gene conhecido. Provavelmente estamos diante de uma condição multifatorial, na qual predisposição genética e fatores hormonais participam do desenvolvimento e da manifestação da doença. O Consenso Brasileiro reconhece evidências sugestivas de hereditariedade, embora a etiopatogenia da doença ainda não esteja completamente esclarecida”, explica.
O controle da doença passa por estratégias individualizadas, segundo Ana Paula. “O principal problema é permitir que uma paciente sintomática permaneça durante anos sem diagnóstico e sem tratamento adequado. Ela pode conviver com dor, peso nas pernas, dificuldade para realizar atividades físicas e comprometimento da qualidade de vida. É importante ressaltar que o lipedema não deve ser considerado uma doença obrigatoriamente progressiva. Sua evolução varia entre as pacientes e pode ser influenciada por fatores como ganho de peso e alterações hormonais”, esclarece.
Texto: Larissa Bispo
