unnamed (1)

Foto/Divulgação

Atualmente, o Rio aparece na segunda posição no ranking nacional que mostra a taxa de autorizações familiares para transplantes

Um gesto de solidariedade. A data de 27 de setembro marca o Dia Nacional da Doação de órgãos e tecidos, que tem como objetivo lembrar que um ato de amor ao próximo possibilita uma nova chance a tantas pessoas que, por anos, aguardam com esperança a chance de continuar vivendo. De acordo com informações da Secretaria de Estado de Saúde (SES), através do Programa RJ Transplantes, neste ano, até 8 de setembro, foram captados no estado do Rio 372 rins; oito pâncreas; 161 fígados; 24 pulmões; 29 corações e um intestino.

O Rio também aparece na segunda posição no ranking nacional que mostra a taxa de autorizações familiares para transplantes. Segundo pesquisa recente do Registro Brasileiro de Transplantes (RBT), divulgado pela Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, com 67% de respostas positivas das famílias, o Rio de Janeiro aparece ao lado do Paraná e atrás apenas de Santa Catarina, que registrou 68% de autorizações. O índice fluminense supera a média nacional, de 55%. O estado também registra média de 22,4 doadores por milhão de população (pmp), acima da taxa nacional, que é de 20,3 doadores.

A Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) está ciente sobre a relevância do tema e busca aprovar medidas que incentivem a doação de órgãos e tecidos e assegurem direitos a quem já é transplantado. A Casa aprovou um projeto de lei para que as escolas públicas e privadas do Estado do Rio possam ter um trabalho voltado à conscientização de alunos sobre a importância da doação de órgãos e tecidos para transplante.

De acordo com a proposta, essas informações deverão estar contempladas no projeto pedagógico das instituições. Além disso, os professores deverão ser capacitados por meio de cursos, simpósios, seminários e outros eventos que visem o conhecimento técnico e científico sobre o tema. A medida seguiu para sanção ou veto do executivo, podendo se tornar lei.

Também já foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça, para posterior discussão entre os deputados, um projeto que prevê a pacientes que passaram por transplante de órgãos o acesso aos mesmos direitos e benefícios destinados às pessoas com deficiência (PCDs) no Estado do Rio. Segundo a proposta, o benefício será destinado aos pacientes que apresentem impedimentos permanentes que comprometam a mobilidade, a independência física, a interação social ou o exercício de atividades habituais. A condição deverá ser comprovada por avaliação biopsicossocial e laudo médico.

Uma vida nova

O aposentado José Osmar Alves, de 54 anos, teve sua rotina modificada por conta da doença de Chagas. Ele precisou parar de trabalhar pelo cansaço e falta de ar que sentia. Após três meses de espera, no dia 12 de agosto de 2012 ele recebeu um coração transplantado. “Minha vida hoje está bem saudável, consigo fazer praticamente tudo que tinha dificuldade em fazer antes”, diz

Entre os novos hábitos adquiridos após a cirurgia está a corrida. José se apaixonou pelo esporte e já coleciona diversas medalhas. “Após o transplante, com seis meses eu comecei a fazer a reabilitação cardíaca no próprio hospital que fiz o tratamento. Quando eu recebi alta da reabilitação, os médicos recomendaram começar a praticar alguma atividade física e me surgiu a ideia da corrida. Fui liberado e comecei praticando corrida de rua de 5km e fui aumentando aos poucos, de 10km para 18 km, 21km e 42km. Hoje, tenho o total de 110 medalhas”, conta.

Ele acredita que, caso vire lei, o projeto que prevê levar informação sobre doação de órgãos e tecidos para jovens em escolas do estado pode ajudar a quebrar qualquer tipo de preconceito que ainda possa existir. “Através da conscientização dos jovens, o estigma e receio do transplante de órgãos tende a diminuir, aumentando a quantidade de doadores e menor fila de espera. Doar órgãos é dar uma nova chance para a vida, representando esperança a quem está aguardando pelo transplante e oportunidade de viver, estar com a família e construir novos momentos”, reflete.

O empresário Gabriel Montenegro foi mais um a ganhar vida nova ao receber um fígado transplantado. “Na época do transplante, em 2015, eu era piloto profissional de motocross e não tinha nenhuma doença. Durante uma competição, tive rabdomiólise, uma síndrome causada pelo excesso de esforço físico, que acabou levando a uma hepatite fulminante. Com a gravidade do quadro, houve a necessidade de realizar um transplante de fígado com urgência. Naquele momento, eu já não teria mais 24 horas de vida se não aparecesse um doador compatível”, relembra.

Hoje, Gabriel tem uma rotina normal, sem nenhuma restrição física ou alimentar. “Tenho uma vida bastante agitada com o trabalho, faço atividade física, jogo futebol e continuo praticando motocross. De vez em quando, até participo de algumas competições”, conta.

O empresário, como receptor de um órgão transplantado, enxerga o projeto de lei que tramita na Casa com muita esperança. “Há 11 anos acompanho eventos e projetos relacionados à doação de órgãos, e uma coisa que sempre se fala é que fica muito mais fácil para uma família dizer ‘sim’ em um momento tão difícil, de dor pela perda, quando essa opinião já existe dentro de casa ou quando aquele ente querido já manifestou em vida a vontade de ser um doador. Acho ainda mais interessante esse movimento começar pelas crianças e pelos jovens, porque eles podem levar esse assunto para dentro de casa, conversar com os pais e familiares e ajudar a formar uma opinião sobre a doação de órgãos”, reflete.

O radialista Leonardo Melo foi quem deu ao irmão, Leandro, a oportunidade de construir um futuro. “Meu irmão nasceu com dois divertículos na bexiga, que funcionavam como grandes reservatórios de urina. Desde criança, ele sofreu com infecções urinárias de repetição, até os 12 anos de idade. Essas infecções acabaram comprometendo seus rins, mas isso só foi descoberto muitos anos depois. Aos 37 anos, ele começou a apresentar inchaço e pressão alta. Foi quando descobrimos que seus rins tinham apenas sete centímetros, enquanto o tamanho normal é de aproximadamente 14 centímetros, e já não conseguiam exercer adequadamente sua função. Diante desta situação, decidi ser o doador”, explica.

Para Leonardo, doar um rim para o irmão foi devolver a ele uma qualidade de vida que já não tinha há muitos anos e reforça a importância do tema ser debatido em todos os âmbitos da sociedade. “Acredito que histórias como essa podem ajudar a mostrar que a doação de órgãos não representa apenas um procedimento médico: representa uma oportunidade de recomeço. Doar órgãos é permitir que uma parte de nós continue ajudando alguém a viver. Converse com sua família, manifeste sua vontade e incentive outras pessoas a fazerem o mesmo. Um gesto de solidariedade pode significar anos de vida, sonhos realizados e uma nova chance para alguém”, conclui.

Primeiro transplante de intestino isolado

Neste mês, o Rio de Janeiro realizou o primeiro transplante de intestino isolado. A equipe do RJ Transplantes captou os intestinos grosso e delgado de um doador em unidade pública da Região Metropolitana. Os órgãos foram transplantados numa paciente de 40 anos, internada no Hospital Adventista Silvestre, única unidade habilitada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para realizar esse tipo de procedimento no estado. O procedimento amplia as possibilidades de tratamento para pacientes com falência intestinal grave.

Como ser um doador

Para ser um doador vivo, de acordo com orientações do Programa Estadual de Transplantes (PET), o cidadão deve ir a um hospital transplantador, onde será avaliado por um médico que irá orientá-lo sobre todo o processo de doação. Para inibir a comercialização de órgãos, a legislação brasileira não permite a doação altruísta no Brasil. O transplante entre vivos é autorizado somente para cônjuge ou parentes até 4º grau. Caso tenha boas condições de saúde e compatibilidade sanguínea com o paciente que precisa do transplante, é possível doar um órgão duplo como o rim, uma parte do fígado, parte do pâncreas ou do pulmão, ou um tecido como a medula óssea. Mas isso só será possível se o procedimento não representar nenhum risco ou problema de saúde para quem está doando.

Para um doador falecido, a pessoa deve expressar em vida, para a família, o desejo de doar seus órgãos e tecidos. Não é necessário deixar nada por escrito, mas seus parentes devem se comprometer a autorizar o procedimento após a morte.

Além disso, moradores do Estado do Rio podem expressar o desejo de doarem órgãos através de registro em cartório online. Implantada em abril deste ano, a Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos (Aedo), já registrou mais de 500 adesões. A nova ferramenta eletrônica integra uma campanha em parceria com os cartórios e o Ministério da Saúde. Ela possibilita tornar mais transparente o desejo do paciente de deixar os órgãos para doação, por meio de uma declaração emitida em cartório.

Para realizar a Aedo, o interessado preenche um formulário diretamente no site oficial (aedo.org.br), sendo direcionado ao cartório de notas selecionado. O registro é gratuito e está disponível também pelo aplicativo e-Notariado.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *