Foto/Divulgação: Erick Quintanilha
Relembre a curiosa história que levou milhares de pessoas a Casimiro de Abreu à espera de extraterrestres e conheça a legislação estadual que protege a cultura popular
Lendas, festas, danças, músicas, brincadeiras, crenças e saberes transmitidos de geração em geração ajudam a contar a história de um povo. No Brasil, essa diversidade ganhou destaque neste mês de agosto, quando é celebrado o Dia do Folclore Brasileiro (22/08). A data é uma oportunidade para valorizar as diferentes manifestações culturais que fazem parte da identidade do país, e o Estado do Rio de Janeiro também tem muito a contar.
O folclore não se resume aos personagens conhecidos das histórias infantis, como o Saci-Pererê, a Cuca e o Boitatá. Ele também está presente nas tradições que surgem e permanecem nas comunidades, nos costumes, nas festas populares, nas formas de expressão e nas histórias que atravessam gerações. O próprio termo “folclore” está relacionado ao saber e à cultura popular.
No Rio de Janeiro, essa riqueza cultural também é reconhecida e protegida por lei. A Lei Estadual nº 6.459/2013, aprovada pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), estabelece que fazem parte do patrimônio cultural imaterial fluminense as manifestações que expressam a identidade, a ação e a memória dos diferentes grupos que compõem a sociedade do Estado.
A legislação inclui entre essas manifestações as práticas e formas de ver e pensar o mundo, cerimônias, danças, músicas, lendas e contos, histórias, brincadeiras e modos de fazer, além de objetos e espaços a eles associados. São conhecimentos e expressões que, justamente por serem transmitidos entre gerações, ajudam a preservar a memória coletiva.
É nesse universo que aparecem histórias que, à primeira vista, podem parecer improváveis. Algumas são antigas e atravessam séculos. Outras são mais recentes e acabam incorporadas à memória de uma cidade. Um exemplo curioso aconteceu em Casimiro de Abreu, no interior do Estado.
O dia em que Casimiro de Abreu esperou pelos extraterrestres
Era 1980. A pequena Casimiro de Abreu tinha aproximadamente 22 mil habitantes quando uma história começou a atrair a atenção de pessoas de diversas partes do país: extraterrestres estariam prestes a visitar a cidade.
Edílcio Barbosa, que se apresentava como porta-voz dos seres extraterrestres, anunciou que os visitantes desembarcariam no município e que quatro pessoas que teriam sido abduzidas seriam devolvidas. A promessa era tão específica que havia até data marcada e planos para receber os supostos visitantes.
Os extraterrestres, porém, nunca chegaram.
A expectativa, por outro lado, levou uma multidão a Casimiro de Abreu. Segundo estimativa da Polícia Militar, mais de 30 mil pessoas foram à cidade para acompanhar o que seria a chegada dos jupiterianos, número superior à própria população do município naquele período.
A história ganhou proporções tão grandes que o episódio passou a ser lembrado como o “Woodstock Brasileiro”, em referência à quantidade de pessoas que se deslocaram até Casimiro de Abreu. Segundo relatos sobre o acontecimento, o prefeito da época, José Bicudo Jardim, também teria aproveitado a repercussão para divulgar a cidade.
O caso, que poderia ter sido apenas uma expectativa frustrada, acabou se transformando em uma história preservada na memória local e passou a integrar o conjunto de relatos relacionados à cultura popular fluminense.
“O prefeito ia dar a chave da cidade para os representantes de Júpiter. Tinha alguém para recebê-los, tinha um cardápio com o que seria servido”, conta a museóloga Elizabeth Pougy, do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP).
Para ela, o episódio ajuda a mostrar que o folclore e as culturas populares não estão necessariamente distantes da realidade cotidiana. São manifestações que surgem a partir da maneira como as pessoas interpretam acontecimentos, constroem narrativas e compartilham conhecimentos. “Lendas são histórias que vão se transformando e vão explicando esse mundo, com aqueles instrumentos, ferramentas, e conhecimentos que se tem”, explica Elizabeth.
Museu do Folclore: tradição e preservação
O Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP), vinculado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), atua na pesquisa, documentação, preservação e difusão das manifestações da cultura popular brasileira. Localizado no bairro do Catete, na Zona Sul do Rio, o centro abriga o Museu de Folclore Edison Carneiro e mantém um amplo acervo dedicado aos saberes e fazeres populares.
O jornalista Leonardo Silva, de 39 anos, visitou o museu e destacou a diversidade de manifestações culturais apresentadas no espaço. “O Museu do Folclore reúne diversas culturas populares, lendas, mitos e histórias contadas dentro de uma determinada comunidade. Essa diversidade de manifestações culturais me chamou muito a atenção”, contou.
Entre as exposições, uma chamou especialmente a atenção do jornalista: a que apresenta a história dos supostos extraterrestres que movimentaram Casimiro de Abreu, em 1980. Leonardo já conhecia o episódio, mas se surpreendeu ao encontrá-lo representado no museu.
“Eu já conhecia a história dos extraterrestres, mas fiquei surpreso em ver uma exposição própria desse evento que reuniu tantas pessoas no município. É algo que ficou marcado dentro do nosso universo de cultura popular, principalmente aqui no Estado do Rio de Janeiro”, destacou.
Para Leonardo, o folclore também está presente em situações cotidianas, muitas vezes sem ser percebido. Histórias compartilhadas entre amigos, ditados populares e tradições transmitidas de geração em geração são alguns exemplos dessa presença.
“Está em pequenos detalhes que acabam passando despercebidos. Preservar nossa história e nossa tradição é preservar nosso passado. Quando preservamos, damos a oportunidade de futuras gerações conhecerem de onde viemos, de onde somos, as raízes da nossa terra”, finalizou.
Uma cultura que continua sendo contada
A história dos extraterrestres de Casimiro de Abreu mostra, de uma maneira bem-humorada, como a cultura popular também é construída a partir das experiências de cada comunidade.
O disco voador pode não ter pousado. Os jupiterianos não apareceram. Mas a história permaneceu.
E é justamente essa permanência que ajuda a explicar a importância de preservar o patrimônio cultural imaterial. Afinal, folclore também é memória: aquilo que as pessoas contam, transformam, repetem e passam adiante.
No Estado do Rio de Janeiro, proteger essas manifestações significa reconhecer que a cultura fluminense não está apenas nos grandes monumentos ou nos livros de história. Ela também está nas festas, nas músicas, nas danças, nas brincadeiras, nas crenças e nas histórias curiosas que fazem parte da memória de cada cidade.
Celebrar o Folclore Brasileiro é, portanto, também olhar para essas histórias e reconhecer nelas uma parte da identidade do povo fluminense.
Com informações da Fundação Cultural de Casimiro de Abreu*

