Foto/Divulgação: Chico Lima
Primeira montagem brasileira do texto do dramaturgo venezuelano Gustavo Ott, dirigida por Danielle Martins de Farias, estreia em setembro no Sesc Copacabana.
Selecionada pelo Edital de Cultura Sesc RJ Pulsar, a produção de Cinco Minutos Sem Respirar estreia no dia 3 de setembro, no Mezanino do Sesc Copacabana, marcando a primeira encenação brasileira do texto inédito do premiado dramaturgo venezuelano Gustavo Ott. A nova montagem da Notória Companhia, dirigida por Danielle Martins de Farias, traz Carla Guidacci e Vanessa Pascale como duas mulheres de trajetórias distintas, atravessadas por diferentes formas de violência e aprisionamento, que se encontram em um supermercado prestes a fechar. De repente, o tempo parece suspenso e o público acompanha cinco possíveis desdobramentos desse encontro, revelando memórias, medos, desejos, contradições e diferentes possibilidades para o desfecho daquela noite.
A dramaturgia de Ott parte de uma situação aparentemente banal para construir uma realidade em suspensão. O espaço cotidiano do supermercado deixa gradualmente de obedecer à lógica realista; o tempo se fragmenta, a memória ganha presença e diferentes possibilidades de realidade passam a coexistir. Mais do que contar uma história, a peça convida o público a experimentar o deslocamento da própria realidade.
É a partir dessa poética que a montagem aborda as diferentes formas de violência que atravessam a vida das personagens. Uma delas está marcada pela violência doméstica; a outra, por uma trajetória em que cuidar dos outros, trabalhar e assumir responsabilidades se tornaram modos naturalizados de existência. O encontro entre as duas faz emergir experiências de abandono, exploração, culpa, endividamento, trabalho e relações de poder.
“A peça fala sobre encontro. São duas mulheres que, apesar das diferenças, reconhecem uma na outra experiências comuns. Mas esse encontro acontece dentro de uma dramaturgia que desloca constantemente aquilo que entendemos como realidade. É justamente nessa instabilidade que encontramos a potência da obra”, afirma a diretora Danielle Martins de Farias.
Entre realidade e ficção
A montagem investiga a dimensão poética da dramaturgia de Gustavo Ott sem abandonar a concretude das experiências das personagens. À medida que a conversa avança, aquilo que parecia uma situação cotidiana começa a adquirir outras dimensões. O tempo deixa de ser linear, a memória interfere no presente e a cena passa a operar entre diferentes estados de realidade.
“O processo tem sido profundamente colaborativo. A gente lê, discute, improvisa, conversa, experimenta e refaz, tentando descobrir o que o texto pode provocar quando encontra os corpos e as experiências das atrizes. A dramaturgia de Gustavo Ott é muito particular porque nada se apresenta de maneira óbvia. Partimos de um espaço cotidiano, mas, aos poucos, o tempo se desloca, a memória invade o presente e outras possibilidades de existência começam a aparecer. A cada ensaio, descobrimos novas relações entre corpo, espaço, palavra, música e imagem”, explica Danielle.
A construção cênica também é atravessada pelo trabalho de dramaturgismo de Juliana Pamplona, que estabelece uma interlocução entre o texto de Ott e o contexto brasileiro contemporâneo, sem descaracterizar a dramaturgia original. A pesquisa incorpora novos materiais à montagem, como depoimentos reais e poemas de mulheres, inclusive brasileiras, que atravessam a narrativa e ampliam as subjetividades das personagens, criando novas relações entre palavra, memória e presença.
A montagem dá continuidade à pesquisa artística da Notória Companhia, dirigida por Danielle Martins de Farias, dedicada a dramaturgias contemporâneas que investigam diferentes formas de opressão presentes no cotidiano. Depois de Dois Amores e Um Bicho, que abordava a homofobia, a companhia volta à obra de Gustavo Ott para investigar as relações de gênero e as estruturas de violência que se manifestam tanto no âmbito íntimo quanto nas relações sociais e econômicas.
Duas mulheres, diferentes formas de aprisionamento
Embora tenha como ponto de partida a violência de gênero, Cinco Minutos Sem Respirar evita uma abordagem maniqueísta. As personagens não são apresentadas simplesmente como vítimas e algozes. A dramaturgia expõe contradições: uma das mulheres sofre violência, mas também participa de uma estrutura de violência econômica por meio de seu trabalho; a outra, tem uma relação ambígua com o excesso de responsabilidades e fez do cuidado dos outros o eixo de sua própria vida.
“As personagens não são simplesmente boas ou más, vítimas ou algozes. Essa contradição nos interessa muito. Ela nos faz pensar sobre como estamos inseridos em estruturas de violência que muitas vezes não percebemos ou naturalizamos”, afirma a diretora.
A peça também aproxima dois universos aparentemente distintos: o banco e o supermercado. Em um, as pessoas são avaliadas por sua capacidade de pagar; no outro, podem ser reconhecidas e classificadas pelo que compram e consomem. Dinheiro, trabalho, dívida e consumo atravessam as relações entre as personagens e ampliam a discussão para além da violência doméstica.
“Os números da violência contra a mulher mostram a urgência do tema, mas nosso interesse não é ilustrar estatísticas. O teatro permite acompanhar essas personagens de maneira íntima e perceber como as relações abusivas atravessam o cotidiano. Ao mesmo tempo, queremos olhar para as estruturas econômicas e sociais que também produzem formas de aprisionamento”, completa Danielle.
Um encontro que desloca o olhar
Ao longo da narrativa, as personagens encontram no diálogo uma possibilidade de reconhecimento. Não se trata de uma solução simples ou de uma resposta pronta, mas da possibilidade de perceber no outro aquilo que antes permanecia invisível. Para a diretora, essa dimensão é fundamental:
“O público pode esperar ser surpreendido. À medida que a conversa entre elas avança, aquilo que parecia cotidiano começa a revelar outras camadas. A peça fala de violência doméstica, abandono, endividamento, trabalho, consumo, culpa e das muitas formas como aprendemos a cuidar dos outros antes de cuidar de nós mesmas. Mas fala também de memória, imaginação e da possibilidade de construir outros mundos. A nossa intenção é que o espectador reconheça situações, mas não encontre respostas prontas.”
Cinco Minutos Sem Respirar propõe, assim, uma experiência em que o real não é um ponto de chegada, mas algo que se transforma diante dos olhos do espectador. Entre o supermercado e o sonho, entre a memória e o presente, entre o que aconteceu e aquilo que poderia ter acontecido, duas mulheres constroem um encontro capaz de deslocar não apenas suas próprias histórias, mas também o olhar de quem as acompanha.
Ficha Técnica
Dramaturgia: Gustavo Ott
Direção: Danielle Martins de Farias
Elenco: Carla Guidacci e Vanessa Pascale
Dramaturgismo: Juliana Pamplona
Iluminação: Maurício Fuziyama e Renato Machado
Design de som: Felipe Storino
Cenário: André Sanches
Figurino: Raquel Theo
Coreografia: Sueli Guerra
Design gráfico: Raquel Alvarenga
Assessoria de imprensa: Alessandra Costa
Marketing digital: Laura Limp Multimídia
Fotografia: Chico Lima
Maquiagem: Joana Seibel
Assistência de iluminação: Rommel Equer
Assistência de cenografia: Débora Cancio
Assistência de produção: Mayara Voltolini
Acessibilidade em Libras: Florlibras
Produção: Danielle Martins de Farias – Notórias Produções
Realização: Sesc RJ Pulsar, Notória Companhia e Notórias Produções
Serviço
Cinco Minutos Sem Respirar
Data: de 3 a 27 de setembro de 2026
Dias da semana: quinta a domingo
Horário: quinta e sexta às 20h30 / sábado e domingo às 19h
Local: Mezanino do Sesc Copacabana
Ingressos: R$ 40 (inteira); R$36 (conveniados), R$31 (conveniados empresário), R$28 (credencial plena Sesc); R$ 20 (meia entrada); Gratuito (público PCG).
Endereço: Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana, Rio de Janeiro -RJ
Informações: (21) 3180-5226
Bilheteria – Horário de funcionamento:
Terça a sexta – das 9h às 20h;
Sábados, domingos e feriados – das 13h às 19h.
Sessões com acessibilidade em Libras: 5 e 19 de setembro
Classificação indicativa: 14 anos
Duração: 90 minutos
Fonte: Alessandra Costa
