flyer_divulgação_perigosas_gratuito

Foto: Divulgação

Do início do sistema prisional feminino surge a dramaturgia do espetáculo


Convidada pelo Judiciário do Rio de Janeiro  a ocupar um espaço da justiça com um espetáculo que coloca uma lupa sobre este tema, Geovana Pires apresenta seu solo, “Perigosas Damas”, no Centro Cultural do Poder Judiciário em curtíssima temporada. 

 

“Perigosas Damas” revisita um passado em que mulheres foram encarceradas não por crimes, mas por existir fora do que lhes era permitido: por serem livres, inteligentes, lésbicas, sexualizadas, por dizerem não. É um espetáculo solo, e tem como ponto de partida o livro ‘Histórias de um silêncio eloquente’ de Thaís Dumêt, no qual extraiu histórias do início do sistema prisional para mulheres no Brasil, que data do início do século XX. 

 

O espetáculo, que estará em cartaz nos dias 07, 08, 14 e 15 de abril, no Centro Cultural do Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro (CCPJ), tem dramaturgia assinada por Geovana, Elisa Lucinda e Denise Stutz e a montagem é uma realização da Companhia da Outra, com produção da Paragogi Cultural. 

 

Perigosas Damas é fruto de uma pesquisa intensa, inclusive dentro de penitenciárias onde a idealizadora realizou projetos sociais como sócia da Casa Poema junto com Elisa Lucinda, e contou com o reforço criativo da direção de Denise Stutz e Soraya Ravenle como diretora musical. 

 

“O feminicídio no Brasil é a expressão extrema da mesma lógica: punir mulheres por romperem silêncios, limites e submissões. A história muda de cenário, mas o sistema que tenta conter a liberdade feminina insiste em se repetir. Celebrar essa obra é também um ato de memória, denúncia e resistência. Sou perigosa porque penso, sou perigosa porque sou livre e posso mudar o destino da trama”, reflete Geovana Pires. 

 

No palco, Geovana aborda o sexismo, opressão e sobretudo a liberdade por meio de vivências femininas reais do passado, mas que se assemelham com a realidade atual de muitas mulheres. 

“Ao longo da história da civilização humana foram criadas leis e mecanismos de contenção para que, independentemente da cor e da classe social, as mulheres fossem encarceradas em manicômios, conventos e sistemas prisionais por serem sexualizadas, lésbicas, extrovertidas, inteligentes, terem repulsa sexual ao marido, praticarem a cartomancia, prostituição, etc.”, analisa Geovana. 

Ela aponta ainda que o espetáculo lança mão da narrativa poética para ajudar a contar essas histórias. Ainda segundo Geovana, na Casa Poema, instituição criada em 2008 por ela e Elisa Lucinda, que há décadas trabalha em diversas camadas sociais usando a poesia como ferramenta de ensino, são ministradas aulas para vários setores da sociedade como quilombos, pessoas em medida socioeducativa, população de rua e população trans. 

 

“Esse espetáculo é fruto da experiência, minha e de Elisa Lucinda, de quase duas décadas trabalhando com toda essa diversidade. A poesia entrou na peça se encaixando com a minha história na Casa Poema, onde trabalhamos com as mulheres privadas de liberdade através da poesia falada. O processo de ensaio foi muito intenso pois não estamos falando só dela. Eu também me vi nelas.  E assim, fomos construindo a dramaturgia durante os ensaios.  E foi lindo por ter sido uma junção de várias mulheres com vivências diferentes”, conta Geovana. 

Ao resgatar essas vidas femininas, Geovana apresenta também versões em rap de alguns poemas de Elisa Lucinda, que foram musicados por Soraya Ravenle, que evidenciam o quanto a liberdade feminina frustrava o Estado na tentativa da limpeza moral e racial a que o Brasil foi submetido.

Com uma equipe feminina em sua maioria, a peça tem como propósito uma narrativa vista sob a perspectiva das mulheres ao dar vida à personagens reais, resgatando histórias respaldadas em ampla pesquisa, que contribuem para a compreensão sobre o feminismo nos tempos atuais. “Tem sido um encontro do olhar feminino que desconstrói o autoritarismo e vai para um lugar de liberdade. Por isso eu não queria ser dirigida por um homem, mas sim por uma mulher. Pelo olhar de compreensão e acolhimento”, analisa. 

Para o projeto, Geovana convidou Denise Stutz que assume a direção e afirma ter sido desafiador trazer para a linguagem teatral histórias tão trágicas de uma forma que aproximasse a plateia independente do gênero. 

“Pensarmos juntas e juntos em uma nova maneira de viver em uma sociedade mais igualitária. Tentamos inventar uma narrativa poética com o auxílio do rap junto com o funk trazendo a periferia, que é de onde começa a história da Geovana. A tese é uma escrita que defende e afirma suas certezas, por isso o meu desafio foi ‘desafirmar’ para perguntar, sem que tenhamos certeza de nenhuma resposta”, afirma a diretora. 

Ao lado de Denise está a atriz e cantora Soraya Ravenle assinando como diretora assistente e musical, que reconhece a liberdade abordada pela peça dentro do processo criativo do projeto. 

“É libertador você se abrir para ouvir o outro. Uma coisa que me fascina muito é o trabalho de um coletivo no teatro. Eu imagino que quando um homem senta para assistir a um espetáculo sobre o universo feminino também estamos falando sobre o masculino. No texto fica bem nítido o patriarcado em que a gente vive. Não é sobre criticar apenas, mas sobre criar um novo olhar”, aponta Soraya.

A dramaturgia teatral conta com as poesias de Elisa Lucinda que é dirigida por Geovana nos espetáculos ‘Parem de falar mal da Rotina’ – sucesso de público há 20 anos – e ‘A paixão segundo Adélia Prado’. “Eu acho que a humanidade não se deu conta ainda no processo de escravização que o feminino sofreu.”, declara Elisa.

“Eu estou envolvida no espetáculo antes mesmo da sua concepção, pois eu participo do livro da Thaís com alguns poemas meus, além do prefácio. Eu acho que a humanidade não se deu conta ainda no processo de escravização que o feminino sofreu. São inúmeras camadas de prisões femininas que vão desde limitações psicológicas, sexuais, autopunição, infelicidades em benefício ao homem, abuso da mão de obra da mãe dentro de uma casa etc. Na verdade, esse espetáculo é um manifesto de antifeminicídio”, acrescenta Elisa.

Reações Jurídicas

O espetáculo, que já realizou apresentações em diversos espaços da cidade do Rio de Janeiro, gerou reações no meio judiciário pela sua autenticidade e importância social quando se trata de mulheres encarceradas no Brasil. Para a juíza do Trabalho e doutora em direito do Trabalho, Patrícia Maeda, Perigosas Damas é uma experiência cênica que provoca o Judiciário a olhar para as tramas do passado e os silêncios do presente. 

“Ao resgatar histórias de mulheres aprisionadas por sua liberdade, a peça convida magistradas, magistrados, servidoras e servidores a refletirem, de forma sensível e crítica, sobre os marcadores sociais que atravessam a justiça. Uma obra potente, fundamentada em pesquisa histórica, poesia e performance, que transforma arte em instrumento de formação, memória e compromisso ético com a igualdade. O espetáculo leva ao Judiciário uma escuta poética e histórica das mulheres silenciadas pelo Estado, um convite à justiça com memória, afeto e consciência social”, sentencia a magistrada. 

José Carlos Garcia, Juiz Federal, mestre e doutor em Direito Constitucional reforça que Perigosas Damas é um espetáculo que mexe com o imaginário social do começo ao fim.  gente do começo ao fim. 

“A peça nos lança no meio das histórias de mulheres encarceradas em manicômios no começo do século XX, por seu ‘comportamento desviante’ do que então se esperava das mulheres em uma sociedade ainda mais patriarcal e machista do que hoje, com montagem envolvente e impactante. Em tempos de ataques ao Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero, do CNJ, uma experiência essencial à toda cidadania, em especial aos atores do sistema de Justiça”, enfatiza o Juiz Federal. 

A direção de produção fica a cargo de Rafael Lydio, da Paragogí Cultural, que é uma produtora que “compreende a cultura como uma potente ferramenta de transformação social, inclusão e fortalecimento da diversidade racial, de gênero, religiosa e cultural”, pontua. 

“A peça foi arrebatadora e através dela nós conseguimos traçar diversas conexões, traçar ideias com mulheres que estavam presentes aqui no TRT. Foi importante para nos empoderarmos, nos juntarmos e criarmos um ambiente de sororidade e troca de experiências”, acrescenta Fernanda Nave, Procuradora do Trabalho.

O propósito da Paragogi é criar experiências que representem, respeitem e potencializem diferentes corpos, vozes e histórias, trabalhando para que a cultura seja um espaço de empatia, equidade e escuta ativa.

Ainda segundo Rafael, a transformação acontece quando todas as pessoas se veem, se reconhecem e se sentem parte do processo. “Com uma atuação comprometida com a justiça social, buscamos construir pontes entre comunidades, instituições e territórios, promovendo encontros que gerem pertencimento e novas possibilidades”, finaliza o produtor. 

SOBRE A CIA DA OUTRA

A Companhia da Outra foi criada em 2007 pelas atrizes e dramaturgas Elisa Lucinda e Geovana Pires e desenvolve um pensamento cênico fruto da larga experiência que esta companhia teatral tem de explorar a força dramatúrgica das obras poéticas. Sua investigação caminha por uma linguagem baseada na premissa de que do conteúdo é que brotam as formas e as escolhas estéticas. A Companhia assina os espetáculos, Parem de Falar Mal da Rotina, A fúria da Beleza, A Natureza do Olhar, A Paixão Segundo Adélia Prado, Perigosas Damas, sem contar os shows musicais e poéticos por todo o Brasil e fora dele.

FICHA TÉCNICA:

Perigosas Damas – um espetáculo da ‘Companhia da Outra’ 

Obra adaptada do livro História de um silêncio eloquente de Thaís Dumêt   

Idealização, atuação e coordenação geral: Geovana Pires  

Direção: Denise Stutz  

Dramaturgia: Elisa Lucinda, Denise Stutz e Geovana Pires  

Direção de produção: Rafael Lydio (Paragogi Cultural)  

Direção musical e diretora assistente: Soraya Ravenle   

Cenário e figurino: Wanderley Gomes  

Trilha sonora original: Flavia Tygel  

Desenho de luz: Ana Luzia Molinari de Simoni  

Pintura de arte: Paulo Pinto  

Assistente de produção: Eduardo Brandão  

Costureira de figurino: Selma Franklin  

Controller: Taís Espírito Santo

Gestão físico-financeira: Carol Villas Boas | Clareira

Idealização: Instituto Casa Poema 

Realização: Companhia da Outra 

Produção: Paragogi Cultural  


SERVIÇOS:

Espetáculo Perigosas Damas

07, 08, 14 e 15 de abril – Terças e Quartas-feiras às 18h30

Centro Cultural do Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro (CCPJ)

Rua Dom Manuel 29, Centro, Rio de Janeiro, RJ

Classificação: 14 anos

Duração: 60 minutos

Ingressos gratuitos no Sympla: Centro Cultural do Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro – CCPJ – Produtor – Eventos e Conteúdos na Sympla

 

Fonte: Alessandra Costa

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *