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Foto/Divulgação: Vitor Silva / Botafogo

Opinião por Yuri Griem

A passagem do empresário norte-americano ficará marcada como uma das mais impactantes da história do Botafogo. De um lado, a reconstrução esportiva que levou o clube ao topo da América. Do outro, uma gestão cercada por conflitos, apostas arriscadas e problemas administrativos que colocaram em xeque a própria sustentabilidade do projeto.

Quando John Textor assumiu o controle da SAF do Botafogo, em 2022, o clube vivia à beira do colapso e um dos momentos mais delicados de sua história. Recém-saído da Série B, carregava cicatrizes financeiras profundas, sofria com limitações estruturais e parecia distante da realidade dos principais protagonistas do futebol brasileiro.

Poucos anos depois, o cenário era outro. O Botafogo conquistava o Campeonato Brasileiro e a primeira Libertadores de sua história, recolocava jogadores no mercado internacional e passava a ser visto como uma potência emergente do continente.

Mas reduzir a Era Textor apenas aos títulos seria ignorar uma trajetória tão brilhante quanto turbulenta.

A RECONSTRUÇÃO DE UM CLUBE QUE ESTAVA SEM RUMO

O principal mérito de Textor foi devolver ambição ao Botafogo.

O clube deixou de pensar apenas em sobreviver e passou a atuar como protagonista no mercado. A chegada da SAF permitiu investimentos inéditos para a realidade alvinegra. Vieram contratações de peso, modernização de setores internos e uma política agressiva de captação de talentos.

Foto/Divulgação: Vitor Silva / Botafogo

A estrutura profissional foi ampliada. O scout ganhou relevância. O clube passou a monitorar mercados internacionais e adotou práticas mais próximas das grandes organizações esportivas europeias.

O Botafogo voltou a disputar jogadores que antes sequer consideravam vestir a camisa alvinegra.
Mais importante que isso: a torcida voltou a acreditar.

O TRAUMA DE 2023

A primeira grande rachadura da gestão ocorreu em 2023.

Após liderar o Campeonato Brasileiro durante quase toda a competição, o Botafogo protagonizou uma das maiores derrocadas já registradas no futebol mundial. O clube abriu larga vantagem na liderança, mas perdeu o controle emocional, técnico e estratégico da campanha.

Foto/Divulgação: Vitor Silva / Botafogo

A troca de treinadores durante a reta final, decisões equivocadas de planejamento e a incapacidade da direção em conter a crise interna contribuíram para um colapso que ainda hoje é lembrado como um dos episódios mais traumáticos da história do clube.

Textor, naquele momento, optou por transferir parte do debate para denúncias sobre arbitragem e possíveis manipulações de resultados. Embora tenha conseguido colocar o tema em evidência nacional, muitos torcedores e analistas entenderam que a discussão acabou desviando o foco dos problemas esportivos que levaram ao fracasso daquela campanha.

A REDENÇÃO: BRASILEIRO E LIBERTADORES

Se 2023 deixou cicatrizes, 2024 trouxe a redenção.
O Botafogo conquistou o Campeonato Brasileiro e, sobretudo, a Copa Libertadores da América, o grande título que faltava em sua galeria. Foi o ápice esportivo do projeto.

Foto/Divulgação: Vitor Silva / Botafogo

A conquista continental transformou definitivamente a percepção sobre o clube e consolidou a SAF como responsável por uma das maiores reconstruções já vistas no futebol brasileiro.

O título da Libertadores não representou apenas uma taça. Representou o encerramento de décadas de frustração para uma torcida acostumada a ver o passado glorioso superar o presente.

O PERSONAGEM QUE NUNCA PASSOU DESPERCEBIDO

Textor jamais exerceu um papel discreto.

Ao contrário de outros investidores que atuam nos bastidores, ele transformou sua imagem em parte da própria narrativa do clube.
Quase como um showman, Textor articipava de entrevistas, respondia críticas publicamente, atacava adversários, questionava dirigentes e travava batalhas constantes contra entidades do futebol brasileiro.

Foto/Divulgação: Vitor Silva / Botafogo

Para muitos torcedores, era um dirigente disposto a enfrentar um sistema que considerava ultrapassado.
Para seus críticos, era alguém que frequentemente criava crises desnecessárias e colocava o clube no centro de conflitos que poderiam ser evitados.

A verdade provavelmente está no meio termo entre essas duas visões.

OS ERROS QUE NÃO PODEM SER IGNORADOS

Embora os títulos tenham sido históricos, a gestão também acumulou falhas graves.

O modelo de administração adotado por Textor frequentemente foi marcado por excesso de centralização e decisões tomadas de forma pouco transparente.

Diversos episódios envolvendo atrasos em obrigações financeiras geraram desgaste institucional e afetaram diretamente a imagem do clube.

Foto/Divulgação: Vitor Silva / Botafogo

Os sucessivos transfer bans sofridos pelo Botafogo recentemente expuseram uma contradição difícil de explicar: um clube capaz de investir milhões em contratações, mas que em determinados momentos falhava no cumprimento de compromissos assumidos.

Para uma SAF que se apresentava como símbolo de profissionalização, e modelo de sucesso entre as SAF’s a repetição desses problemas levantou questionamentos legítimos.

Não se tratava apenas de burocracia.

Cada punição representava um sinal de alerta sobre governança, planejamento financeiro e gestão de passivos.

A impressão deixada em alguns momentos era a de que o crescimento esportivo acontecia em velocidade superior à capacidade administrativa de sustentá-lo.

A DEPENDÊNCIA DE UMA FIGURA CENTRAL

Outro ponto muito discutido durante sua passagem foi a forte personalização do projeto.

Durante anos, tornou-se difícil separar o Botafogo da figura de John Textor.

Vitórias, derrotas, contratações e crises frequentemente eram associadas diretamente ao empresário.

Foto/Divulgação: Vitor Silva / Botafogo

Essa concentração de protagonismo gerou uma dúvida inevitável: o projeto era institucional ou dependia excessivamente da presença de seu principal investidor como protagonista?

Toda organização sólida precisa sobreviver aos seus líderes. E essa será uma das principais provas do Botafogo daqui para frente.

FRASES QUE DEFINIRAM UMA ERA

Ao longo dos anos, algumas ideias passaram a simbolizar sua gestão:

A defesa permanente da meritocracia esportiva;

O discurso de combate ao que chamava de falhas estruturais do futebol brasileiro;

A promessa de transformar o clube em uma potência mundial e internacionalizar a marca Botafogo;

A insistência em “confiar no processo” mesmo durante momentos de crise;

A convicção de que o clube deveria pensar grande, independentemente de seu histórico recente.

Esses conceitos ajudaram a moldar uma nova mentalidade dentro do clube, o famoso “Botafogo way” mas também geraram expectativas que, em alguns momentos, que se mostraram difíceis de sustentar.

O VEREDITO DA HISTÓRIA

A Era John Textor não cabe em análises simplistas.

Foi a gestão que entregou ao Botafogo os maiores títulos de sua história recente e o colocou novamente entre os protagonistas do continente.

Mas também foi uma gestão marcada por controvérsias, instabilidade administrativa, compromissos não cumpridos, conflitos institucionais e decisões que frequentemente expuseram o clube a riscos desnecessários.

Os resultados esportivos foram extraordinários.

A execução administrativa, porém, foi caótica e nada trasnparente.

Foto/Divulgação: Vitor Silva / Botafogo

Seus defensores lembrarão para sempre da Libertadores, do Brasileiro e da reconstrução de um gigante adormecido.

Seus críticos recordarão os transfer bans, os problemas de gestão, as disputas públicas e a sensação de que, muitas vezes, o clube esteve à mercê de uma administração excessivamente personalista.

No fim, John Textor deixa o Botafogo melhor do que encontrou. Mas deixa também uma discussão que provavelmente acompanhará sua passagem por muitos anos: teria sido possível alcançar os mesmos resultados sem tantos erros pelo caminho? Essa é uma pergunta que só o tempo poderá responder.

O FUTURO DA SAF ALVINEGRA

Com a saída de John Textor, os olhares se voltam para a GDA Luma Capital, grupo que ganhou protagonismo nos bastidores do Botafogo através de Gabriel de Alba. A empresa já havia se aproximado da Eagle Football após conceder um empréstimo de alto risco a Textor em um momento de forte pressão financeira sobre o conglomerado.

Foto: Divulgação / Reprodução

Desde então, a influência da GDA Luma cresceu consideravelmente, com Gabriel de Alba assumindo papel cada vez mais relevante nas discussões sobre o futuro da SAF. Embora ainda existam etapas societárias a serem definidas, o mercado já enxerga o grupo como o principal candidato a assumir definitivamente o controle do futebol alvinegro.

Se Textor será lembrado pela reconstrução e pelas conquistas históricas, caberá agora aos novos gestores o desafio de manter o Botafogo competitivo, corrigindo os problemas administrativos que também marcaram a gestão anterior.

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