unnamed

Urna Eleições. Foto/Divulgação: Fábio Pozzebom / Agência Brasil

Especialistas explicam que o fenômeno vai além das fake news e apontam estratégias para consumir conteúdo com mais segurança durante o período eleitoral

Bastam alguns minutos deslizando o dedo pela tela do celular para ser exposto a uma sequência quase infinita de notícias, vídeos, mensagens, memes e opiniões. O fenômeno, chamado de infodemia, desafia o cidadão a distinguir fatos, mentiras e boatos em meio a um alto volume de informações propagadas cada vez mais rápido. Durante as eleições, quando o debate político domina as redes sociais, especialistas alertam que o excesso de conteúdo também favorece a circulação da desinformação e pode influenciar o voto.

A realidade é parte do cotidiano de mais da metade dos adultos. Uma pesquisa do Instituto Reuters indica que cerca de 54% das pessoas utilizam plataformas digitais e redes sociais como fonte primária para se informar e acompanhar acontecimentos diários, superando os meios tradicionais. E, na web, quem ganha destaque na produção de conteúdo são os influenciadores. No entanto, 62% deles declaram não realizar verificação sistemática das informações antes de compartilhá-las.

Ao mesmo tempo, 73% das celebridades digitais dizem que gostariam de receber formação para aprender a fazê-lo, segundo levantamento feito pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Com a alta busca por informação na internet e a fragilidade do conteúdo, o cenário chama o poder público para a responsabilidade de garantir a formação de um ambiente digital mais seguro.

Por isso, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) criou a Lei nº 11.285/26, que institui a Política Estadual de Formação e Incentivo de Influenciadores Digitais. Entre seus objetivos estão a alfabetização midiática, o combate à desinformação, a divulgação científica baseada em evidências e o uso responsável das plataformas digitais.

Como se proteger na pandemia de informações

Pesquisadora de desinformação na Universidade Federal Fluminense (UFF), Dandarah Filgueira explica que a infodemia não se resume à circulação de informações falsas, mas ao volume de conteúdos com os quais as pessoas precisam lidar diariamente. Para a pesquisadora, esse contexto é agravado pelo funcionamento das plataformas digitais. Ela explica que os algoritmos são desenvolvidos para manter o usuário conectado por mais tempo e tendem a apresentar conteúdos semelhantes aos que despertaram interesse anteriormente, criando o chamado “filtro bolha”.

“É importante sempre desconfiar de informações que parecem muito bombásticas, absurdas, que despertam revolta, medo ou raiva, pois os conteúdos desinformativos se ancoram nesses sentimentos. Ao se deparar com esse tipo de informação, por mais que haja uma ansiedade em compartilhar quanto antes, é importante tentar averiguar minimamente”, afirmou Dandarah.

Segundo ela, o usuário pode buscar por erros ortográficos, verificar se há imagens tiradas de contexto ou recorrer a agências de checagem que avaliam a precisão de notícias e redobram o trabalho em período eleitoral.

Eleições ampliam a circulação de conteúdos enganosos

Durante as campanhas eleitorais, o interesse da população pelo tema aumenta e, com ele, cresce também a circulação de conteúdos sobre a disputa política. A evolução da inteligência artificial tornou esse cenário mais complexo, com a produção de imagens e vídeos cada vez mais realistas.

A estratégia para garantir um pleito seguro, segundo Dandarah Filgueira, é ampliar a educação midiática. A preocupação também aparece na Lei nº 11.285/26, que estabelece como um de seus pilares a promoção da alfabetização midiática, o incentivo ao uso responsável das redes sociais, além da conscientização dos influenciadores digitais sobre a responsabilidade na produção de conteúdo e no combate à desinformação.

E se a infodemia dificulta a identificação de informações confiáveis, a legislação eleitoral busca reduzir os impactos da desinformação durante as campanhas. Professora de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e especialista em Direito Eleitoral, Vânia Aieta explica que a divulgação de conteúdos falsos capazes de comprometer a disputa eleitoral é considerada uma irregularidade grave.

“A infodemia é combatida com regras que exigem transparência total: qualquer conteúdo gerado ou alterado por IA deve ser identificado com marca d’água ou aviso visível. A proibição de deepfakes e a criminalização do uso de IA para criar conteúdo falso sobre candidatos eliminam a fonte mais perigosa de contaminação informacional, preservando a autenticidade do debate”, disse Vânia.

A professora orienta que o eleitor consulte fontes oficiais, utilize os canais da Justiça Eleitoral para denunciar conteúdos suspeitos e se inclua no debate como um personagem ativo na busca por eleições limpas.

“A principal mensagem é: ‘Sua consciência vale mais que um clique’. Antes de acreditar, reagir ou compartilhar, pergunte-se: isso é verdade? Quem se beneficia com essa informação? A desinformação só prospera quando age mais rápido que o pensamento crítico. O voto é um ato de soberania individual — protegê-lo da mentira é proteger a própria democracia”, conclui.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *