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Foto/Divulgacao: Allef Viana/pexels

Segurança, renda, saúde, educação e serviços públicos estão entre as questões que atravessam o cotidiano dos moradores, mas viver em um mesmo território não significa fazer as mesmas escolhas políticas

 

Em períodos eleitorais, as favelas voltam a ocupar espaço nos discursos de candidatos e partidos. Aparecem como alvo de propostas de segurança, habitação, emprego, educação e infraestrutura e também como territórios importantes para campanhas em busca de votos.

Mas tratar a favela como um único grupo de eleitores simplifica uma realidade muito mais diversa. Morar em um mesmo território pode fazer com que pessoas compartilhem problemas e experiências semelhantes, mas não determina em quem elas votam.

No Rio de Janeiro, essa discussão envolve uma parcela expressiva da população. Dados do Censo 2022 mostram a dimensão das favelas e comunidades urbanas no estado e ajudam a entender por que esses territórios ganham relevância nas disputas eleitorais.

Dentro deles, porém, existem diferentes trajetórias, condições econômicas, religiões, profissões, gerações e posições políticas. Segurança pode ser prioridade para um eleitor. Para outro, emprego e renda. Saúde, educação, transporte, saneamento, moradia e acesso aos serviços públicos também podem influenciar a maneira como cada pessoa avalia candidatos e propostas.

A pesquisa Sonhos da Favela 2026, realizada pelo Data Favela com 4.471 moradores maiores de 18 anos nas cinco regiões do país, ajuda a dimensionar essa diversidade de demandas. O levantamento não é uma pesquisa eleitoral e, portanto, não mede intenção de voto. Seus resultados mostram, porém, algumas das questões presentes na vida dos moradores justamente no ano em que o país volta às urnas.

Na segurança, 47% disseram desejar poder ir e vir com tranquilidade, 29% querem menos violência e 17% apontaram a necessidade de um policiamento mais respeitoso. Quando questionados sobre as mudanças que desejam para suas comunidades, 26% citaram saneamento básico, 22% educação, 20% saúde e 13% transporte.

Trabalho e renda também aparecem. Cerca de 60% dos entrevistados recebiam até um salário mínimo, 34% estavam na informalidade e 17% desempregados. Ao falar sobre o futuro profissional, 38% disseram sonhar em ter o próprio negócio, 24% querem trabalhar com algo de que gostam e 16% desejam passar em concurso público.

Os números ajudam a mostrar por que é difícil falar em um único “voto da favela”. Mesmo quando moradores convivem com problemas semelhantes, eles podem atribuir pesos diferentes a cada questão na hora de escolher seus representantes.

Foto/Divulgacao: Alex dos Santos/pexels

Segurança ocupa espaço no debate eleitoral Entre essas questões, a segurança pública tem presença constante nas campanhas eleitorais do Rio de Janeiro.

A própria pesquisa mostra diferentes percepções sobre o tema. Trinta e seis por cento dos entrevistados disseram não confiar em nenhuma das instituições apresentadas para protegê-los da violência. No Rio de Janeiro, o percentual chegou a 47%. A Polícia Militar foi citada por 27% e a Polícia Civil, por 11%.

Também não há uma percepção única sobre a presença policial. Entre os entrevistados, 22% disseram sentir-se mais seguros com a presença da polícia, 13% relataram medo ou insegurança e 25% afirmaram que ela não altera sua sensação de segurança.

A vereadora carioca Marielle Franco, vítima de feminicídio político em 2018, também relacionava segurança, favela e acesso a direitos. Em entrevista de 2017, quando exercia seu mandato, defendeu investimentos públicos que garantissem “o direito, por exemplo, do favelado de ir e vir e ter direito à educação”.

Essa relação aparece também em outras respostas da Sonhos da Favela 2026. Quando perguntados sobre o futuro de suas famílias, 31% dos entrevistados disseram desejar uma moradia melhor, 22% acesso à saúde de qualidade, 12% esperavam ver os filhos entrando na universidade e 10% citaram segurança alimentar.

As prioridades também mudam de acordo com os grupos que vivem nesses territórios. A pesquisa, formada por uma amostra em que 82% dos entrevistados se declararam pretos ou pardos e cerca de 60% eram mulheres, mostrou que metade considera que a cor da pele interfere nas oportunidades de trabalho.

Entre os desafios enfrentados pelas mulheres, cerca de sete em cada dez entrevistados citaram violência doméstica e feminicídio. Emprego e renda foram mencionados por 43%, e 37% apontaram questões relacionadas ao cuidado dos filhos.

São demandas que ajudam a explicar por que propostas eleitorais voltadas às favelas não se resumem à segurança.

 

Das demandas ao voto em 2026

Nas eleições de 2026, moradores das favelas escolherão, como os demais eleitores brasileiros, presidente, governador, senadores, deputados federais e deputados estaduais. E parte das questões que aparecem entre suas prioridades será diretamente afetada pelas decisões desses representantes.

No Rio, o governador tem responsabilidades importantes sobre segurança pública, educação estadual e transporte metropolitano e intermunicipal. Os deputados estaduais aprovam leis, fiscalizam o governo e votam o orçamento destinado às políticas estaduais.

Presidente, deputados federais e senadores participam de decisões nacionais que afetam emprego, renda, habitação, saúde, educação, segurança e transferência de recursos para estados e municípios.

Outras demandas dependem principalmente das prefeituras e câmaras municipais, que não estarão em disputa neste ano. Essa divisão de responsabilidades também importa durante uma campanha: um candidato pode prometer uma solução para determinado problema sem que o cargo que disputa tenha poder para executá-la sozinho.

É nesse encontro entre experiência cotidiana, prioridades individuais, avaliação das propostas e atribuições dos candidatos que a relação entre favela e voto se torna mais complexa.

As condições de um território podem colocar determinados problemas no centro da vida de seus moradores, mas não produzem automaticamente uma escolha eleitoral comum. Dois eleitores que enfrentam falta de saneamento, violência ou dificuldade de acesso à saúde podem avaliar de maneiras diferentes qual problema é mais urgente e qual proposta oferece a melhor resposta.

Por isso, as favelas podem ser territórios importantes na disputa eleitoral sem constituírem um bloco único de votos.

Em 2026, segurança, renda, saúde, educação, transporte, saneamento e moradia estão entre as questões que candidatos precisarão enfrentar ao apresentar propostas para esses territórios. Para os eleitores, a escolha passa também por avaliar quem apresenta respostas para suas prioridades e, principalmente, se o cargo disputado tem atribuição para transformá-las em política pública.

** Este conteúdo foi produzido com apoio do Programa Orire de Apoio às Mídias Independentes 2026, iniciativa do Instituto Orire voltada ao fortalecimento do jornalismo independente e da produção de informação de interesse público.

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