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Foto/Divulgação: sanketgraphy

Redes sociais transformaram a comunicação entre candidatos e eleitores, mudaram a forma de fazer campanha e fizeram da disputa por atenção e informação uma parte central da política contemporânea

Da televisão para as telas

Durante muito tempo, televisão e rádio ocuparam um espaço central nas campanhas eleitorais brasileiras. O horário eleitoral, os debates e a cobertura dos grandes veículos estavam entre as principais formas de um candidato conseguir falar com milhões de pessoas ao mesmo tempo.

A popularização das redes sociais mudou essa dinâmica. Hoje, candidatos podem falar diretamente com seus seguidores por meio de uma publicação, vídeo ou transmissão ao vivo. Do outro lado da tela, eleitores podem comentar, compartilhar, responder e fazer aquele conteúdo chegar a outras pessoas.

Essa mudança aparece nos números. Pesquisa Quaest divulgada em janeiro de 2026 mostrou que as redes sociais se tornaram a principal fonte de informação política para 39% dos brasileiros entrevistados, enquanto a televisão foi apontada por 34%. Em dezembro de 2025, os dois meios apareciam empatados, com 35% cada.

Entre os mais jovens, a diferença é ainda maior. Em levantamento da Quaest divulgado em março deste ano, 56% dos entrevistados entre 16 e 34 anos disseram se informar sobre política principalmente pelas redes sociais, contra 18% pela televisão. Entre as pessoas com 60 anos ou mais, a relação se inverte: 51% apontaram a televisão e 22%, as redes sociais.

Isso não significa que a televisão deixou de ser importante. Os meios convivem, mas a política passou a ocupar também as telas que acompanham o eleitor durante praticamente todo o dia.

A política em busca de engajamento

A forma de fazer campanha também mudou. Vídeos curtos, linguagem informal, humor, memes, trends e cenas da vida pessoal passaram a dividir espaço com discursos, entrevistas e propostas de governo.

Uma fala feita durante um evento pode virar um vídeo de poucos segundos. Um trecho de um debate pode circular separado da discussão original. Uma declaração pode se transformar em meme e alcançar pessoas que nem sequer seguem aquele candidato.

Nas redes sociais, candidatos também adaptam linguagem e conteúdo para diferentes públicos. Curtidas, comentários, visualizações e compartilhamentos passaram a fazer parte das estratégias de comunicação política. Uma campanha que antes tinha horários determinados para aparecer na televisão agora pode produzir conteúdo e disputar a atenção do eleitor ao longo de todo o dia.

Para quem está do outro lado da tela, a relação também mudou. O eleitor não precisa apenas receber a mensagem. Pode comentar uma publicação, cobrar um representante, compartilhar uma proposta, publicar uma crítica ou participar de uma discussão política diretamente pelo celular.

Essa comunicação mais direta também aumentou a exposição de quem participa da política. Uma publicação pode aproximar um representante da população, mas informações falsas, ataques e discursos de ódio também podem alcançar milhares de pessoas em pouco tempo.

Entre a informação e a desinformação

A mesma velocidade que permite que uma informação política chegue rapidamente a milhares de pessoas também pode fazer conteúdos falsos ou fora de contexto circularem na mesma proporção.

Uma fotografia antiga pode reaparecer como se fosse atual. Um trecho de vídeo pode ser retirado de contexto. Uma mensagem recebida de alguém conhecido pelo WhatsApp pode parecer verdadeira mesmo sem apresentar qualquer fonte. E, quando esse tipo de conteúdo envolve pessoas que ocupam cargos públicos ou disputam uma eleição, seus efeitos podem ultrapassar o debate que acontece nas redes.

A deputada estadual Renata Souza (PSOL-RJ) viveu uma situação desse tipo durante a campanha para a Prefeitura do Rio, em 2020. Em entrevista à Agência Lupa, concedida em 2023, a parlamentar contou que uma rede de desinformação chegou a divulgar sua fotografia acompanhada do endereço de sua casa. Segundo Renata, a circulação daquele conteúdo não ficou restrita ao ambiente virtual e teve consequências para sua segurança e sua rotina.

“A desinformação gerou para mim muita perseguição e discurso de ódio. Foi uma situação difícil até no local onde morava. A desinformação e o discurso de ódio se complementam”, afirmou a deputada à Agência Lupa.

O relato mostra um dos lados dessa nova relação entre política e redes sociais. A comunicação direta permite que representantes conversem com milhares de pessoas sem depender exclusivamente dos meios tradicionais, mas a mesma estrutura também possibilita que informações falsas, ataques e conteúdos ofensivos sejam reproduzidos e ampliados por outros usuários.

O avanço da inteligência artificial acrescentou uma nova camada a esse problema. Hoje, além de uma informação falsa escrita ou de uma fotografia retirada de contexto, imagens, áudios e vídeos podem ser criados ou modificados digitalmente, inclusive simulando a aparência ou a voz de uma pessoa real.

Essa transformação também chegou às regras eleitorais. Desde as eleições de 2024, a Justiça Eleitoral passou a estabelecer normas específicas para conteúdos produzidos ou alterados por inteligência artificial e para o uso de deepfakes. Para as eleições de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral atualizou novamente as regras da propaganda eleitoral no ambiente digital.

Entre as normas para este ano está a exigência de identificação explícita de determinados conteúdos sintéticos produzidos ou alterados por inteligência artificial. A Justiça Eleitoral também mantém restrições ao uso de deepfakes e estabeleceu regras específicas para a circulação de conteúdos sintéticos envolvendo candidatos e pessoas públicas no período próximo à votação.

A propaganda eleitoral na internet também segue regras próprias. Desde 16 de agosto, candidatos e partidos podem fazer campanha em sites, blogs, redes sociais e aplicativos de mensagens, dentro das normas estabelecidas pela Justiça Eleitoral.

A adaptação da legislação mostra que a política digital deixou de representar apenas uma mudança na maneira de fazer campanha. Ela também criou novos desafios para candidatos, eleitores, plataformas digitais e para a própria Justiça Eleitoral.

O desafio de escolher em meio ao excesso

Se as redes facilitaram o acesso direto a candidatos, representantes e informações políticas, elas também aumentaram a quantidade de conteúdo que chega diariamente ao eleitor.

É nesse cenário que a alfabetização midiática ganha importância. Conferir quem publicou uma informação, procurar sua fonte original, observar a data, verificar se um vídeo está completo e comparar o conteúdo com outras fontes são algumas formas de identificar informações enganosas antes de compartilhá-las.

Para o psicanalista e professor da Universidade de São Paulo (USP) Christian Dunker, o público vem desenvolvendo maior atenção diante da circulação de conteúdos sem fundamento.

“É possível que a cultura esteja formando um pouco mais de consciência, de alerta, de advertência para o universo de fake news e reprodução automática de matérias especulativas ou sem fundamento”, afirmou Dunker em entrevista ao Jornal da USP.

Nas eleições de 2026, televisão, rádio, sites e redes sociais convivem na disputa pela atenção dos eleitores. A diferença é que a campanha agora também cabe na palma da mão.

Um vídeo pode chegar ao eleitor antes de o programa eleitoral começar na televisão. Uma declaração pode virar meme em minutos. Uma informação falsa pode circular rapidamente e uma checagem também.

A popularização das redes sociais não acabou com as formas tradicionais de fazer política. Mas mudou a velocidade da comunicação, criou novos canais entre representantes e população e transformou a disputa por atenção e informação em uma parte cada vez mais presente das eleições.

** Este conteúdo foi produzido com apoio do Programa Orire de Apoio às Mídias Independentes 2026, iniciativa do Instituto Orire voltada ao fortalecimento do jornalismo independente e da produção de informação de interesse público.

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